No decorrer de uma campanha que vem tomando contornos decisivos um pouco cedo demais, tenho ouvido algumas afirmações que não se sustentam diante dos fatos. Vejamos.
Na corrida presidencial deste ano, a vitória de Dilma representaria uma mexicanização do Brasil, o PT como PRI. O PRI teve domínio amplo durante ao menos seis décadas. Estamos longe disso, ainda mais pelo fato de o PT não estar para ganhar em todos os Estados, como vemos em diversas situações (SP, MG, RJ, SC, PR). Em sua estratégia o PT optou, inclusive, por ceder a cabeça de chapa a aliados na maioria dos Estados.
A disputa deste ano não apresenta verdadeiras alternativas, todos querendo ser herdeiros de Lula, o que seria ruim para a democracia. Mais uma vez errado. Há diversos candidatos de esquerda que estão a apontar falhas do atual governo e, mais ainda, do próprio sistema econômico: PCO, PSTU, PCB, dentre outros. Porque eles não passam do traço nas pesquisas é uma outra conversa. O que falta, e aí não é responsabilidade do atual governo ou do PT, é uma oposição mais á direita, mais conservadora.
Na verdade, este é o verdadeiro problema que enfrentamos atualmente. As atuais eleições evidenciam que existe oposição eleitoral no Brasil, mas que a oposição política somente se apresenta a partir de partidos de esquerda, de baixa expressão eleitoral. Onde está (sem ironia) a direita?
Não consigo entender porque o PSDB e DEM não se colocam de uma maneira digna (do ponto de vista de uma oposição política mais conservadora). Os temas da direita, em que pese eu não concorde com a maioria deles, não são anátemas! Alguém tem que elaborar no nosso país o ideário liberal, propugnando e tentando mesmo fazer funcionar um modelo de Estado mais enxuto, com um mercado mais competitivo, formulando toda uma estrutura ideológica fundada na liberdade individual.
O que, na minha opinião, rebaixa mesmo PSDB e DEM é este oportunismo político, de, ao verem as pesquisas qualitativas, simplesmente jogarem ao mar suas bandeiras históricas, sua razão de existir. Serra querer enaltecer Lula foi apenas a cereja de um bolo que já estava estragando. Onde está FHC? Trata-se de um bom presidente que o país teve, deixou seu legado compatível com uma linha mais conservadora. Porque escondê-lo? FHC cometeu erros e ações nem tão louváveis, mas Lula também, como aliás qualquer “príncipe” que tenha tido êxito, no sentido de Maquiavel.
Critica-se um PT do passado, sempre do contra, mas esta direita deveria se mirar naquela atitude, sob pena de ser engolida por muitos anos. Mesmo quando a derrota era evidente, o PT nunca deixou de elaborar seu discurso, firmando-se como uma oposição política que, num dado momento de esgotamento das idéias conservadoras, apresentou-se como a esquerda viável.
Minhas conclusões: somos democracia, pois temos eleições com opções eleitorais claramente colocadas. Somos democracia, pois existem grupos mais à esquerda do atual governo defendendo seu projeto de maneira livre, configurando uma oposição não apenas eleitoral, mas política. Não há oposição conservadora, mas por responsabilidade única e exclusiva de PSDB e DEM. Que deixem de ficar se lamentando, pois uma democracia precisa de oposição atuante, fiscalizadora e propositiva. E que não seja golpista, bem entendido!
São Fco.
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
Dorian Gray ao contrário - Ruy Castro
Hoje na Folha
"RIO DE JANEIRO - Caminhar pelas calçadas do Rio em tempo de eleição é disputar uma corrida de 400 metros com barreiras. Difícil dar um passo sem tropeçar nos cavaletes com as fotos dos candidatos.
Temos não apenas de driblá-los, como evitar que nos expulsem para o meio-fio, onde podemos ser atropelados por um carrinho de sorvete empurrado por um infeliz e equipado com um aparelho de som apregoando as virtudes dos candidatos. (Minha ideia de pesadelo é quando o carrinho está indo na mesma direção e no mesmo passo que eu, e não é possível ultrapassá-lo.)
Ao mesmo tempo, essa maratona atlética equivale também a um passeio no trem-fantasma, pelo sorriso alvar e engessado dos candidatos cujas fotos estão nas tabuletas. É o horror em versão Photoshop. São rostos altamente retocados, sem um vinco, uma olheira ou um dente cariado que tornassem mais humanos aqueles homens e mulheres a quem delegaremos nosso destino pelo futuro próximo.
Lembram-me "O Retrato de Dorian Gray", o grande romance de Oscar Wilde. No livro, o heroi continuava jovem e belo na vida real, enquanto o rosto do retrato, escondido num armário, envelhecia e ficava repulsivo, refletindo as maldades e ignomínias que Dorian cometia contra as pessoas.
No caso dos nossos políticos, será exatamente o contrário. Pelos próximos quatro anos, poderemos constatar as deformações monstruosas que a prática operará no rosto deles-os calombos, rugas, veias, cicatrizes e erupções provocados por suas traições ao eleitor, alianças repugnantes, negociatas, assaltos ao dinheiro público etc. Tudo isso, à medida que for acontecendo, ficará gravado em suas indisfarçáveis carantonhas.
Imutáveis, só as fotos. Dentro de quatro anos, as tabuletas com elas voltarão às calçadas, mostrando-os ainda mais jovens e frescos do que nas atuais eleições.
"
"RIO DE JANEIRO - Caminhar pelas calçadas do Rio em tempo de eleição é disputar uma corrida de 400 metros com barreiras. Difícil dar um passo sem tropeçar nos cavaletes com as fotos dos candidatos.
Temos não apenas de driblá-los, como evitar que nos expulsem para o meio-fio, onde podemos ser atropelados por um carrinho de sorvete empurrado por um infeliz e equipado com um aparelho de som apregoando as virtudes dos candidatos. (Minha ideia de pesadelo é quando o carrinho está indo na mesma direção e no mesmo passo que eu, e não é possível ultrapassá-lo.)
Ao mesmo tempo, essa maratona atlética equivale também a um passeio no trem-fantasma, pelo sorriso alvar e engessado dos candidatos cujas fotos estão nas tabuletas. É o horror em versão Photoshop. São rostos altamente retocados, sem um vinco, uma olheira ou um dente cariado que tornassem mais humanos aqueles homens e mulheres a quem delegaremos nosso destino pelo futuro próximo.
Lembram-me "O Retrato de Dorian Gray", o grande romance de Oscar Wilde. No livro, o heroi continuava jovem e belo na vida real, enquanto o rosto do retrato, escondido num armário, envelhecia e ficava repulsivo, refletindo as maldades e ignomínias que Dorian cometia contra as pessoas.
No caso dos nossos políticos, será exatamente o contrário. Pelos próximos quatro anos, poderemos constatar as deformações monstruosas que a prática operará no rosto deles-os calombos, rugas, veias, cicatrizes e erupções provocados por suas traições ao eleitor, alianças repugnantes, negociatas, assaltos ao dinheiro público etc. Tudo isso, à medida que for acontecendo, ficará gravado em suas indisfarçáveis carantonhas.
Imutáveis, só as fotos. Dentro de quatro anos, as tabuletas com elas voltarão às calçadas, mostrando-os ainda mais jovens e frescos do que nas atuais eleições.
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quarta-feira, 1 de setembro de 2010
Clube veta parceiro gay como dependente
Da Folha de SP de hoje
"LETICIA DE CASTRO
GIBA BERGAMIM JR.
DE SÃO PAULO
Um casal de médicos homossexuais, que vivem juntos há seis anos, acusa o Clube Athlético Paulistano -frequentado pela elite de São Paulo- de discriminação por recusar a adesão de um deles como sócio-dependente.
Associado do clube desde criança, o médico infectologista Ricardo Tapajós, 45, pediu ao conselho do clube no final do ano passado a inclusão de seu companheiro, o cirurgião plástico Mario Warde, 39, como dependente.
A decisão, negativa, saiu no último dia 26. "Estamos tristes. Somos discriminados por sermos uma união homoafetiva", disse Tapajós, que, 15 anos antes, conseguiu incluir a mãe de seus filhos, com quem não era casado, como dependente.
O estatuto do clube Paulistano entende como união estável a relação entre homem e mulher. Para aceitar o novo dependente, a maioria dos 220 conselheiros teria que ser favorável a uma alteração no estatuto, o que não ocorreu.
"O clube está seguindo o estatuto, o Código Civil e a Constituição. E a mudança estatutária não foi aprovada", disse o diretor de comunicação, Celso Vergeiro.
Em entrevista à Folha, em julho, o presidente do Paulistano, Antonio Carlos Vasconcellos Salem, disse que, em caso de negativa do pedido, eles poderiam ir à Justiça.
"Tudo depende do conselho. Se os conselheiros disserem que contradiz o estatuto, não há o que falar. Se o casal se sentir prejudicado, vai à Justiça. Se o estatuto for alterado, tudo bem, é a vontade dos sócios", afirmou à época.
VIDA EM COMUM
Segundo a advogada Adriana Galvão, presidente do Comitê de Estudos Sobre Diversidade Sexual e Combate à Homofobia da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Tapajós pode pedir a inclusão judicialmente, além de alegar danos morais, se provar a discriminação.
"É preciso comprovar a vida em comum. O clube também não é obrigado a aceitar uma relação esporádica. A decisão foi pautada pelo medo de aceitar uma nova realidade. Isso não se justifica."
Os conselheiros mais antigos entendem que o correto seria que o dependente comprasse o título, que custa R$ 5.000, e arcasse com o valor da transferência (R$ 180 mil)."
Meu comentário - 1- Volta e meia posto algo sobre estas questões que envolvem relações homoafetivas, pois são um excelente exemplo de situação onde o direito se mostra claramente maior que a legislação.
2- A UNESC já reconhece as uniões homoafetivas há anos, para efeitos de benefícios como bolsa dependente para funcionários e professores.
"LETICIA DE CASTRO
GIBA BERGAMIM JR.
DE SÃO PAULO
Um casal de médicos homossexuais, que vivem juntos há seis anos, acusa o Clube Athlético Paulistano -frequentado pela elite de São Paulo- de discriminação por recusar a adesão de um deles como sócio-dependente.
Associado do clube desde criança, o médico infectologista Ricardo Tapajós, 45, pediu ao conselho do clube no final do ano passado a inclusão de seu companheiro, o cirurgião plástico Mario Warde, 39, como dependente.
A decisão, negativa, saiu no último dia 26. "Estamos tristes. Somos discriminados por sermos uma união homoafetiva", disse Tapajós, que, 15 anos antes, conseguiu incluir a mãe de seus filhos, com quem não era casado, como dependente.
O estatuto do clube Paulistano entende como união estável a relação entre homem e mulher. Para aceitar o novo dependente, a maioria dos 220 conselheiros teria que ser favorável a uma alteração no estatuto, o que não ocorreu.
"O clube está seguindo o estatuto, o Código Civil e a Constituição. E a mudança estatutária não foi aprovada", disse o diretor de comunicação, Celso Vergeiro.
Em entrevista à Folha, em julho, o presidente do Paulistano, Antonio Carlos Vasconcellos Salem, disse que, em caso de negativa do pedido, eles poderiam ir à Justiça.
"Tudo depende do conselho. Se os conselheiros disserem que contradiz o estatuto, não há o que falar. Se o casal se sentir prejudicado, vai à Justiça. Se o estatuto for alterado, tudo bem, é a vontade dos sócios", afirmou à época.
VIDA EM COMUM
Segundo a advogada Adriana Galvão, presidente do Comitê de Estudos Sobre Diversidade Sexual e Combate à Homofobia da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Tapajós pode pedir a inclusão judicialmente, além de alegar danos morais, se provar a discriminação.
"É preciso comprovar a vida em comum. O clube também não é obrigado a aceitar uma relação esporádica. A decisão foi pautada pelo medo de aceitar uma nova realidade. Isso não se justifica."
Os conselheiros mais antigos entendem que o correto seria que o dependente comprasse o título, que custa R$ 5.000, e arcasse com o valor da transferência (R$ 180 mil)."
Meu comentário - 1- Volta e meia posto algo sobre estas questões que envolvem relações homoafetivas, pois são um excelente exemplo de situação onde o direito se mostra claramente maior que a legislação.
2- A UNESC já reconhece as uniões homoafetivas há anos, para efeitos de benefícios como bolsa dependente para funcionários e professores.
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